terça-feira, 5 de julho de 2016

porque tudo o que preciso mesmo é de um certo silêncio

a situação é mais ou menos a seguinte: tenho observado, ainda que de forma distraída, os muitos movimentos - surgidos, de repente, em toda parte - para que possamos não apenas compreender, mas de uma certa maneira, vivenciarmos o futuro... uma ânsia louca por nos posicionarmos mais à frente da maioria de nossos concorrentes, clientes, parceiros, fornecedores; de nos anteciparmos às crises todas (iniciadas ou ainda não); de visualizarmos tendências, possíveis novos cenários; determinarmos nossos posicionamentos 'agora' de acordo com uma 'amanhã' que já está por aqui a nos atropelar com violência e sem nenhuma parcimônia. por toda parte tudo o que escuto, tudo o que observo, tudo o que leio, tudo o que ensino e tudo o que aprendo diz respeito ao 'futuro'... a como devo pensar, como devo me posicionar, como devo me defender, atacar (se for o caso), como devo me comunicar, como devo conversar com minha filha, meus colegas, superiores, amigos, enfim, uma verdadeira ditadura de como eu deveria ser X ao como realmente sou (ou penso que sou) !!! o futuro, de repente, tem se tornado um lugar assustador... e o mais estranho é que, antes desta onda toda de futurismo sair das artes e da moda e adentrar o espaço das organizações empresariais, disfarçado de outro nome, nada disso parecia me causar qualquer estranheza... visto assim, venho recentemente me perguntando: o que é realmente assustador afinal? o futuro? talvez não... talvez seja mesmo apenas essa onda que vem ganhando cada vez mais importância de modo generalizado nas últimas décadas - a INOVAÇÃO ! Dizem alguns sabidos por aí que 'Inovar significa renovar ou introduzir novidades de qualquer espécie ou, na sua contrapartida que “não inovar é morrer”.... com esta resolução, as empresas e, consequentemente as pessoas, neste caso 'EU', acabo por sofrer da síndrome de que só sobreviverei caso venha a introduzir alguma novidade, tecnológica ou não, num curto espaço de tempo, todos os dias, o tempo todo, em tudo o que faço sob pena de me tornar obsoleta, ultrapassada, caduca e descartável. Na ânsia por viver 'agora' o que seria o ideal de 'amanhã', sinto que me perco...Na angústia de compreender este novo contexto, sendo induzida a atender e superar expectativas e exigências, a transcender os inesperados desafios do mundo atual, sendo exigida a pensar e agir de um jeito novo, disruptivo, criativo e assertivo, incorporando novas linguagens e novas tecnologias a cada momento... nesse cenário, tudo o que realmente gostaria era de um pouco de silêncio!!! Sendo ela, a INOVAÇÃO, fruto da criatividade, da imaginação; sendo ela meio, processo e não um 'produto', seria para mim, necessário um pouco mais de silêncio... a mim me faltam espaços de distração na busca pela INOVAÇÃO... A mim, o raciocínio criativo para produzir novas ideias só tem lugar no aqui-agora... neste espaço 'MORTO' do HOJE, onde as pessoas realmente estão... Onde elas vivem, se experimentam, erram, acertam, se toleram (ou não).. aqui no hoje (não no amanhã) consigo visualizar algo de 'inovação'... para isso, preciso do silêncio... da observação... da distração e de um pouco de fé !

domingo, 10 de abril de 2016

o tempo

quem já não viveu uma intensa saudade e desta saudade não nasceu um sinal? assim do nada? uma carta? um e-mail? um telefonema? e agora, mais atualmente, um whatsapp ? pois é... aconteceu comigo... de novo! às vezes, acho que o pensamento tem mesmo uma força magnética. grande. capaz até de atravessar um oceano. o meu às vezes atravessa o tempo. já ouvi um dia que sou 'atemporal'... e também já ouvi que ninguém é capaz de sustentar-se fora do tempo. eu, certamente não sou! acordei com aquele aperto no peito. conhecido e velho como eu mesma. trazendo o barulho do silêncio vazio, me mostrando que lembranças são mesmo eternas, onde quer que elas estejam! pode ser que este aperto não tenha realmente começado apenas hoje, pode ser que hoje ele apenas tenha se materializado... e se materializou em palavras, pois há tempos descobri que palavras não bastam, que o medo não se afasta nunca de fato e que nossa história continua ali, parada no tempo, no meu tempo onde ela se complicou... como ouvi numa música enquanto descia distraída a ladeira que me separam da cidade chamada baixa: 'a maldade do tempo fez eu me afastar de você'; ou seria o contrário? a maldade do tempo entre nós - enorme - fez mesmo você se afastar de mim! e agora? não tem mesmo muito o que eu possa fazer a não ser esperar por ele... pelo tempo... esse mesmo que fez tudo se complicar, que colocou em lados opostos expectativas que pareceram tão próximas, este tempo que nunca se justificou, que me faz olhar no espelho todos os dias e me dar conta de que não existe história real, exceto aquela que eu inventei... este mesmo tempo que te levou e agora deverá me salvar. será??? estou aqui reescrevendo minha história (ou pelo menos tentando), deixando meu cabelo crescer, tentando escrever um diário (meio que numa tentativa idiota em manter o tempo preso), caminhando para não viver em círculos, fotografando para não deixar o presente escapar (como se logo no instante seguinte ele mesmo já não virasse passado), fazendo pequenas rotas de fuga (como um curso, um discurso, um texto ou um pretexto)... enfim, ainda aqui! sempre aqui! será??? como pude assim, tão perto, me perder tanto de mim? e você? por onde anda será???

domingo, 3 de abril de 2016

uma páscoa no Albardão !

a travessia do cassino ao farol do albardão, mesmo sem muito preparo de minha parte, acabou se tornando uma aventura que posso comparar à forma de viver minha vida. aceitando o convite de um grupo desconhecido para mais uma 'indiada', como alguns de meus amigos e familiares intitulam aquilo que para mim é vital, arrumei o que achava ser uma boa mochila e coloquei o pé na estrada. percebi ao longo do encontro que éramos um grupo maduro, de gente tão parecida comigo e minha visão sobre a vida assim que começamos a nos apresentar naquele ônibus, que nos conduziria à primeira metade de nosso destino - a praia do Cassino - litoral sul do estado, conhecido por suas enormes extensões de areia e deserto; um lugar inóspito e ventoso, onde poucas vezes eu mesma já tinha ido. ali conheci, ainda superficialmente, uma galera que, assim como eu, sente uma 'coceira' desenfreada pela estrada, pelo caminhar, pelo caminho. gente que olha o mundo melhor através das lentes de suas máquinas fotográficas e que faz a leitura daquilo que que lhes é importante no contato com lugares diferentes, pouco visitados e muito distante das realidades de shoppings e cidades populosas. gente que, assim como eu, prefere a solidão de uma vida andada ao lado de desconhecidos, do que muitas vezes a certeza do que se vai encontrar quando buscamos as mesmas pessoas e os mesmos lugares. no entanto, como vim a perceber mais adiante, só conhecemos mesmo uns aos outros, quando a necessidade de apoio mútuo, solidariedade e generosidade, começam a fazer parte da jornada humana; exatamente como ocorreu durante nossa travessia do cassino ao albardão e lá mesmo no deserto, atravessando suas areias solitárias, debaixo de chuva, vento, sol, calor, frio, e mais vento... a minha percepção sobre a aventura começou logo depois de nosso almoço, ainda na praia do Cassino. até ali eu realmente não fazia muito ideia do que íamos viver, até porque, como mais uma vez me dei conta, não costumo me debruçar muito sobre roteiros de trilhas, mesmo depois de me inscrever nelas. parto sempre do princípio de que alguém sabe o que está fazendo e conto sempre com a minha natural e conhecida sorte, para que tudo sempre saia bem, como de fato sempre acontece. desta vez não foi muito diferente! concordei e assinei os papeis do cronograma todo, sem realmente me preocupar em olhar mapas, roteiros, entender antecipadamente para onde estava indo ou o que realmente iria encontrar. sem barraca, sem lanterna, sem prospectos e sem muito conhecimento real do lugar, me lancei na aventura de estar onde deveria estar, pelo simples fato de ter escolhido estar ... coisas bem Jacqueline... as areias intermináveis que sustentam os 145 quilômetros de estrada (ou deveria chamar de beira-mar), que nos ligava até o farol do Albardão desde o Cassino, foram percorridas em longas quase quatro horas. poderia descrever este período como um espaço de tempo em que chacoalhávamos no interior da camionete 4X4 do querido amigo Zé, responsável por nos levar (e aos nossos equipamentos) em segurança, através de diversas paradas até o Albardão.
o que posso contar é que foi uma viagem interessante, tanto do ponto de vista do espetáculo - não me cansei de observar as distâncias horizontais e brancas, entrecortadas vez ou outra por alguma vegetação rasteira descortinando os cataventos gigantes do parque eólico do Cassino,
bem como impossível não se encantar com as diversas espécies coloridas de pássaros que sobrevoavam nossa camionete, realizando vôos rasantes e aterrissagens maravilhosas !
simultaneamente, iam saltando aos nossos olhos deslumbrados, inúmeras embarcações encalhadas há dezenas de anos, possibilitando paradas estratégicas às nossas lentes curiosas...dá para comentar aqui que a visão do famoso 'Altair' (navio afundado na década de setenta) cujos restos mortais ainda despontam na praia quando a maré está um pouco mais baixa, me encheram de emoção e alegria, ainda que um pouco desapontada por não revelá-lo completamente na ida (isso é outro capítulo, pois a viagem também me ensinou que nada melhor do que um dia após o outro), uma vez que ao voltarmos de viagem, lá estava ele - completamente descortinado - exatamente como já havia visto antes em outras publicações, para o deleite completo de nossas máquinas fotográficas !
entre restos de embarcações, passarinhadas, parques eólicos deixados para trás, quilômetros e quilômetros de areia branca e espuma, muito vento, areia e conversas entabuladas para passarmos as horas num convívio forçado (mas já bastante prazeroso) ia seguindo nossa viagem! eu me distraía entre tentar conhecer melhor um pouco meus parceiros de jornada, lhe ouvindo as histórias e contando-lhes as minhas; e mirando aquela praia tão remota, esperando ansiosamente por vislumbrar o tal farol. por diversos momentos nosso condutor parava a camionete e descia, entrando em imensas poças d'água, deixadas como rastros na areia do mar, identificando qual a melhor maneira de atravessá-las. nestes momentos ele examinava a 'fundura' das águas numa clara demonstração de que sabia bem o que estava fazendo. entre essas vezes, nós nos deleitávamos a fotografar e brincar com a imaginação, entrevendo como nos viraríamos se por acaso não conseguíssemos passar, ou ficássemos atolados, ou ainda, molhássemos todo o equipamento que viajava conosco num reboque logo atrás. nada disso realmente sucedeu. transitamos sãs e salvos pela habilidade e experiência do Zé, que nos conduziu em segurança até o famoso Farol do Albardão! (abaixo meu primeiro 'vistazo' deste, que acabou sendo nosso abrigo, por mais de uma noite, afinal !!!)
a ideia original de acamparmos no deserto, debaixo das figueiras centenárias naquela noite ainda, logo foi substituída por outra, que ocorreu de uma pergunta que fiz ao Zé, quando avistei o Albardão: haveria problemas em acamparmos ali mesmo, ao invés de no deserto, como era de fato, a primeira intenção? na verdade minha pergunta foi acolhida como sinônimo de plano B por nosso guia, sendo colocada ao grupo como alternativa devido ao tempo e às condições em que chegávamos ao farol. é fato que já estava praticamente escurecendo, o vento parecia aumentar a cada minuto e ninguém poderia realmente nos assegurar de que não iria chover, o que minimizava muito nossas chances de um acampamento tranquilo, caso resolvêssemos seguir o plano original. nunca saberei ao certo como teria sido esta experiência, pois a ideia nova foi acolhida por todos como a melhor escolha a se fazer diante do cansaço em que estávamos e da perspectiva de caminharmos mais uns oito quilômetros deserto adentro, com todo o equipamento de camping nas costas, numa situação de tempo que ia ficando cada vez menos favorável... o bom senso nos fez pedir guarida no Farol do Albardão e por ali mesmo acantonamos. o farol, que serve como ponto de referência para navegadores dos mares do sul,nos serviu perfeitamente como abrigo de aventureiros, exatamente como faz com peregrinos que se lançam a desafios como o nosso, muitas vezes atravessando a pé os muitos quilômetros que havíamos acabado de realizar a bordo do 4X4. a sensação de ficar ali foi mesmo uma mistura de alívio com frustração; afinal, não realizaríamos o que havíamos planejado ao sair de Porto Alegre. minha sensação, no entanto, talvez tenha sido um pouco maior, pois a ideia pareceu ter surgido da minha pergunta (confesso aqui ter ficado um pouco embaraçada diante da perspectiva de estar frustrando os planos de outra pessoa, mas isto também ficará sempre apenas na minha imaginação) :) de qualquer modo, a acolhida no farol foi mesmo maravilhosa. havia na casa dois aventureiros motoqueiros que também haviam pedido abrigo aos militares. Ah! esqueci de contar que o Farol do Albardão é uma reserva da Marinha Brasileira que, apesar de servir de guarida para os que passam por ali eventualmente, é um local de entrada proibida e só passam por queles portões, pessoas antecipadamente autorizadas pelos oficiais. A noite transcorreu muito tranquila, apesar do tempo revelar-se não muito amistoso. ventava bastante quando saímos a caminhar ainda naquela noite, deserto adentro, munidos apenas de lanternas e, no meu caso, chinelos, para uma aventura rumo ao desconhecido. nada se via realmente durante a caminhada, exceto as luzes longínquas das lanternas (de quem tinha, claro) e o feixe de luz emanado pelo próprio farol. o certo é que nos guiávamos muito mais pelos sons das risadas abafadas pelo murmúrio do vento e pela certeza de que nada nos aconteceria, exceto a sorte de porventura vislumbrar a lua, caso as densas nuvens dessem algum espaço para ela no céu... minha constatação mais óbvia logo nos primeiros passos foi de que nunca deveria ter iniciado aquela trilha sem meus tênis, a contar pelo número incrível de pega-pegas que fui colecionando pelo caminho. logo, porém, me encontrava nas areias fofas do deserto, longe das terras proibidas do farol, pulando cercas e adentrando a escuridão. eu não tinha bem certeza de onde estávamos. não havia ouvido as instruções e nem mesmo havia saído junto com todos no grupo. havia ficado para trás numa de minhas inúteis tentativas de fotografar algo na escuridão, não considerando as limitações obvias de minha super zoom e as minhas como fotógrafa, é claro! (abaixo o que consegui fotografar no deserto à noite)
o vento provavelmente duplicou na madrugada e a chuva disparou sobre nós. estávamos , no entanto, bem abrigados na casa de hospedagem do farol. meu saco de dormir foi bem suficiente jogado sob o chão duro do quarto onde estava com mais quatro companheiras. a excitação da caminhada noturna e a perspectiva de acordarmos ainda na madrugada no dia seguinte para iniciarmos nossa trilha pelo deserto fez com que dormíssemos cedo. a manhã seguinte veio com muita chuva e vento. nos preparamos para o que seria uma caminhada longa e talvez um pouco dura devido às condições climáticas. não nos preparamos, no entanto, para o que realmente enfrentamos no caminho. sem mochila de ataque para carregar um pouco melhor as coisas, resolvi levar um pequeno cantil de água e um saco de bolachas para o que imaginei seriam oito quilômetros de ida até as árvores centenárias e mais oito quilômetros de volta pela lagoa das mangueiras. coloquei no bolso ainda um queijo tipo polenghinho e decidi, com o coração partido, não levar a máquina fotográfica; optando pelo celular no bolso do casaco, na legítima intenção de não carregar muito peso e protegê-la, caso a chuva que caía, aumentasse ao longo do trajeto. sem mala de proteção acreditei que era o melhor a fazer pela máquina e, olhando agora, penso que foi uma boa ideia, afinal... o caminho pelo deserto iniciou pouco depois das cinco da manhã, após termos comido alguma coisa no farol e eu conseguido uma xícara de café preto! apostei nas bolachinhas que levei como salva-vidas até voltarmos seguros para o almoço. iniciamos uma suave caminhada pelos arredores do farol, ainda que impulsionados por um vento forte que soprava em nossas costas e alguma chuva que teimava em se precipitar sobre a gente. caminhamos assim até pularmos novamente as cercas de arame farpado que dividem o farol do deserto propriamente dito. lembro de observar que o farol se distanciava mais e mais enquanto o céu totalmente fechado e escuro inciava seu processo de abertura para o dia que chegava de mansinho. caminhei muitas vezes absorta em meus próprios pensamentos e ruminações a cerca da vida e de como eu chegara até ali. algumas vezes observava o grupo que parecia tão distraído quanto eu mesma estava. alguns enlouquecidos com suas máquinas e aparatos de fotografias me faziam me arrepender de não ter trazido a minha. tudo o que via era belo. o mundo inteiro estava branco. areia e mais areia, vento forte carregando as dunas de um lado a outro. o chão parecia mover-se sob nossos pés...
muitos quilômetros adiante, a paisagem seca e inóspita do deserto dá lugar a uma visão mais branda, viva e verde. foi quando nos aproximamos da lagoa da mangueira. um enorme manancial de água da chuva, represada entre as areias do deserto do Albardão. tamanha magnitude aquática trouxe água de volta aos cantis, já secos, e a possibilidade de descansarmos um pouco, revigorando pés descalços agora dos tênis pesados e insuportáveis pelo peso das areias que se iam acumulando. muitos aproveitaram para molharem pés, pernas e até o corpo, sentindo a fofura da terra macia abaixo de nossos pés. eu me perdi naquele horizonte sem fim imaginando quantas pessoas realmente já haviam vislumbrado tamanha beleza, num canto de mundo onde parecia não chegar realmente ninguém...
chegáramos, então, a um terço de nossa jornada.... dali partiríamos para mais quase oito quilômetros de caminhada de volta ao deserto, em direção às árvores centenárias, onde na noite anterior deveríamos ter acampado. procurei-as com os olhos nus e o que vi foram duas pequenas ramificações, mal sendo vistas da distância de onde estávamos às margens da lagoa. pareciam, de fato, duas minúsculas moitas perdidas naquele deserto enorme de meu deus - seguimos andando! a estas alturas havia comido metade do meu pacote de bolachas e o 'polenghinho' jogado no fundo de meus bolsos repletos de areia. resolvi economizar um pouco mais a água. até então o longo percurso de deserto não nos havia intimidado. não deveriam ser nem mesmo nove horas da manhã e já nos sentíamos tendo vencido o deserto. mal sabíamos que nossa jornada mais árdua de verdade ainda nem começara! ao iniciar a caminhada na direção das árvores, senti o vento soprando bem mais forte e cortando meu rosto quando eu decidia olhar para a frente. ainda havia nas imediações muita vegetação, plantas, espécies animais como girinos, sapinhos, ovos de lagartos, pássaros coloridos e sinais claros de capivaras ou algum outro animal maior, cujas fezes se acumulavam por toda a parte. a distração não me deixou perceber que o vento beirava a níveis bem mais altos, tendo eu percebido estar realmente incomodada apenas quando já estávamos chegando às figueiras centenárias e suas enormes raízes. duas árvores robustas, frondosas e exuberantes se estendiam sob nossas vistas cansadas do vento, com sua solidez e magnitude, exibindo-se como senhoras absolutas naquela imensidão de nada...
e, neste momento, ao alcançarmos as duas árvores gigantes, o tempo mudou! já encolhidos debaixo de suas copas enormes, ou deitados a descansar sobre suas generosas raízes, percebi que a chuva aumentava conforme aumentava de velocidade o vento que nos acompanhara até ali. e foi somente ao tentar andar contra ele, no caminho que seria todo de volta ao farol, que percebemos o quanto havíamos de fato caminhado e o quanto havia ainda por andar. ideia do tempo não tinha nenhuma. o que sei é que a cada passo andado em direção ao farol no retorno, dois passos pareciam estar sendo dados para trás, impulsionados pelo esforço que nossos corpos precisavam fazer para vencer as dunas. o início, embora difícil, foi caminhado em silêncio total. sabíamos que não tínhamos mais água, praticamente, que havíamos comido tudo que leváramos e que a volta se apresentava bem mais dura do que a ida até ali. ventos de aproximadamente quarenta/cinquenta quilômetros por hora nos empurravam na direção contrária a que precisávamos andar e a chuva começava a castigar nossos corpos molhados e agora, mais do que antes, bastante cansados. cabeças baixas, cajados fincados no chão (para quem os tinha - não era o meu caso), tênis recolocados nos pés molhados e repletos de areia, tocas e chapéus voando sem controle, olhos praticamente fechados durante o caminho por ser impossível mantê-los abertos diante daquela tempestade que se formava nas areias ... assim era o quadro que pintamos no caminho de volta ao farol. de verdade, de tempos em tempos, eu me atrevia a olhar vez ou outra para trás, apenas para ver as figueiras se distanciando mais e mais e, muito raramente para frente, na esperança de avistar algum sinal do farol adiante. o que via era apenas mais areia, meus companheiros solitários em suas cabeças abaixadas e de novo mais areia. andávamos sempre atrás de nossos guias. eles eram nossas bússulas e nossas direções.lembro de ter ficado um pouco para trás em um determinado momento e pensado: 'como saberia para onde ir, caso , porventura, viesse a perdê-los de vista?'; de fato não saberia! assim, só me restava andar e tentar não perder o ritmo, embora sentisse que a falta d'água e a preocupação com os parceiros que começavam a ficar para trás, começaram a tomar conta de meus pensamentos. eu já caminhava apenas pela chegada. embora dissesse a mim mesma que logo chegaríamos, isso parecia cada vez mais longe de acontecer. vi que dois de nosso grupo se distanciavam ficando cada vez mais para trás e percebi que estavam em apuros. creio que àquelas alturas muitos também já haviam percebido, pois seguidamente sugeriam pararmos para esperar por eles. o retorno que deveria ser de mais oito quilômetros e percorridos em talvez até mais duas horas acabou se arrastando para muito mais que isso. simplesmente um de nós estava exausto. e seu ritmo acabou ditando o ritmo do grupo que caminhava muito mais lentamente, esticando a perspectiva de, em algum momento, avistarmos o farol novamente. tudo o que eu queria era que chegássemos todos e bem. isso parecia cada vez mais distante de acontecer. chegaram notícias de que nosso companheiro que parecia exausto não só estava mesmo exausto como estava sem água nenhuma. outro de nossos amigos, que provavelmente estava em muito melhores condições que os demais, caminhou de volta até eles e levou-lhes sua água. esperamos mais um pouco e eles reiniciaram a trilha. mais adiante, nova parada. assim caminhamos os quilômetros que faltavam até finalmente avistarmos o farol. infelizmente os olhos chegam mesmo muito antes do que as pernas. faltava muito ainda. lá pelas tantas o grupo se dissipou. sem informações, metade de nós seguia um dos guias que disparou à nossa frente, enquanto outros se guiavam pelos passos mais lentos da guia de trás; que estacava a cada metro à espera dos que estavam com dificuldades lá atrás. e nós, sem entender para que lado ir, ou qual guia seguir, estancamos exaustos já, sentados em dunas à espera de ordens de comando. para encurtar, conto aqui que esta ordem chegou finalmente nos dizendo que seguíssemos com o guia da frente, tentando alcançar o farol, pois outras medidas de resgate pelas areias da praia seriam realizadas a fim de trazer um pouco mais de alívio aos companheiros muito cansados que haviam ficado para trás. entendida a missão, colocamos mais fogo em nossas canelas e partimos, sem olhar mais para trás, rumo ao farol; apenas torcendo para que os colegas de jornada cumprissem sua saga e conseguissem o que haviam planejado, chegar à praia e aguardar o carro de resgate que voltaria para buscá-los. neste momento, percebi o quanto estávamos solidários e unidos pelo bem de todos. o quanto cada um de nós fazia o que era preciso para que todos e cada um chegássemos bem ao nosso destino. uma das colegas de grupo precisou de uma bala para evitar uma hipoglicemia. outro que não suportava mais andar recebeu a solidariedade de mais dois ou três que se revezavam na espera uns dos outros a fim de servirem como sinalizadores do novo caminho. outra menina que havia levado em sua mochila mais comida do que todos nós, alimentou a todos com seus amendoins, biscoitos e frutas, servindo como carro de apoio até mesmo para nosso guia. água acabou sendo distribuída a todos os que precisavam por aqueles que ainda tinham alguma em seus cantis. sentinelas voluntários se disponibilizaram a esperarem uns pelos outros. eu revezava com outro companheiro os tênis deixados de lado pelo parceiro que havia ficado para trás, bem como a mochila com os restos de cascas e alimentos que uma de nós não aguentava mais carregar.... e assim, todos íamos nos ajudando de tempos em tempos até todos chegarmos bem, felizes, cansados, aliviados mas principalmente, repletos de histórias para contar. a notícia ao chegarmos era de que o mar havia subido muito com a mudança do tempo e de que nós realmente não teríamos como partir naquele mesmo dia, como estava programado. cansados e vencidos pela força da natureza percebemos que dormiríamos uma noite a mais no farol... passaríamos uma Páscoa no Albardão... e assim foi !!!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

estoy en la mitad de la carretera

bueno, esta é claro é uma frase roubada. roubada do Drexler, sem muito escrúpulo, na verdade, porém, por uma justa causa. assim me sinto. e cada dia que passa, mais me autorizo a ser quem sou. hoje peguei minha bicicleta. eu e ela temos, por assim dizer, uma espécie de cumplicidade ambulante. toda vez que nos encontramos, sabemos exatamente o que vamos fazer. hoje, como quase sempre, entrei em transe ao lembrar desta letra, que muitas vezes ouvi, mas que nunca senti se aplicando tão bem à ocasião. vento forte batendo na cara ao descer a 'lomba' da marechal floriano; de repente, senti o que era a liberdade que só se pode conhecer daqui... da metade da vida...deste lugar...do alto de uma bicicleta em alta velocidade pelas ruas desta cidade... com este vento e esta sensação, Drexler me autorizou e senti vontade de dizer a todos que me desculpem, mas não há mais espaço para meias-palavras, meios-sentimentos, meias-verdades... não há mais espaço para as entregas que não forem totais. por estes últimos dias andei me revisitando, como geralmente ocorre quando quase todas as coisas não saem como havia previsto. certo mesmo é que já deveria ter me acostumado... elas nunca saem... há tanto aprendizado quando nos damos conta. quando nos damos conta de todas as encruzilhadas pelas quais passamos, dos altos e baixos dos relacionamentos, da necessidade de doença e de cura, da crença absurda na eternidade das brigas, da desnecessária formação dos medos, da absurda falta de confiança e fé, das ingênuas crenças nas receitas de felicidade. ao nos darmos conta da velocidade da vida e da falta de perspectivas, percebemos como verdadeira, a liberdade. não o que economizar. não há por que economizar. não há sentido em economizarmos sentimentos, palavras, suspiros, risos, lágrimas, gozos; não há sentido em guardarmos amor na gaveta, deixarmos o perdão para depois, escondermos ciúmes, envergonhar-mo-nos da inveja... não há sentido em sermos menos do que outrora fomos. por isso é bom percebermos, e logo, o mais rápido possível, quando chegamos a esta etapa da vida, um lugar de onde, sem dúvida, não há mais para onde voltar !!!

domingo, 10 de janeiro de 2016

Não sou mulher de poemas, minha vida vai melhor em prosa... entretanto, alguns, às vezes me encontram e com alguns, às vezes, converso... a vida em versos é mais poética, mais pausada, mais exposta... sou mulher de prosa, de lineariedade, de retórica e muito ainda de lógica... quando não lógicas as coisas me atropelam, quando não lógica a vida se me pesa... encontrar por vezes a poesia, me encanta e expõe a alma, me tira da linha... me coloca assim como que num ‘suspenso’... traz um ar de que não me conheço... e é aí que me atrapalho... encontro em mim um novo olhar, às vezes ingênuo, que não permite a razão... sem razão não sou eu mesma... sem minha lógica não me encontro... a poesia faz isso com a gente! ... nos suspende num espaço que não permite a análise... transborda sentimentos... expulsa o pensar... nos tira a razão... e sem razão, ah! Sem minha tão amiga razão, me perco de mim e completamente em mim...

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Diário de uma ex-deprê...

Para começar uma conversa a respeito deste título, que me ocorreu ontem, precisaria voltar alguns anos no tempo. Precisamente 2009. Talvez você aí nem acredite em ex-deprimidos, ex-fumantes, ex-alcoólatras. Talvez não existam mesmo. Pesquisando um pouco sobre o tema, descobri que o termo correto para descrever aqueles que deixaram algum vício de lado seria mais como 'alcoólico em tratamento', dependente químico em tratamento, fumante em tratamento, e, por que não enquadrar aqui também, deprimido em tratamento. Isso na verdade não importa muito e não importa mais. 2009 foi talvez o ano do início de uma jornada que me jogou no presente e , sem o qual, eu jamais teria me dado conta do quanto andava ausente do mundo naquela época. Minha ausência era justificada, afinal, estava em 'luto'. Pelo menos assim era como todos os amigos mais próximos (e entendidos de Freud) me definiam. Portanto, eu estava justificada. Minha surpresa com o fato de ter descido em uma estação antes do trem chegar ao seu 'destino final', me deixara atônita. Mas, afinal, não havia como culpar o maquinista, os outros passageiros ou mesmo ao meu companheiro de viagem. Não havia ninguém para culpar, exceto a mim mesma. Eu que decidira desembarcar um pouco antes para ver o que encontraria. E meu susto ocorreu no exato momento em que percebi que o trem da vida não espera ninguém. Ele não pára. Você escolhe ficar. Escolhe sair. E escolhe voltar. Foi num dia de verão em 2009. Talvez janeiro. Enquanto descia a rua principal de meu antigo condomínio para encontrar o portão que me levaria até a primeira parada de ônibus a fim de pegar um coletivo que me deixasse no meio do caminho para o trabalho, encontrei os amigos Ale e Luis tirando seu carro da garagem. Olharam para mim com ar preocupado e, gentis, perguntaram para onde eu iria e se queria carona. Olhei para eles com surpresa e, naquele instante, percebi que não tinha a menor ideia. Ao dizer isso a eles, vi que aí sim, os deixei muito preocupados! Como um alcoólatra que abre a geladeira e, tremendo muito, serve-se de sua dose diária de uísque, ali estava eu. Em frente ao portão, imaginando para que lado eu deveria seguir, sem a menor noção do que fazer. Minhas mãos tremiam com nervosismo. Tremia porque acabara de acordar e perceber, pela primeira vez na vida, que eu não tinha ideia alguma de como prosseguir a partir daquela nova estação. Que eu não havia me preparado. Não havia mapas, tampouco roteiros com planos B alternativos. Foi um ano específico e bastante atípico aquele 2009! Sozinha na estação, a olhar o trem da minha vida seguir seu rumo e sem a menor pretensão de voltar para me buscar, perdi meu chão. Foi um ano decisivo também. Depois dele, nada poderia ser pior, pensei eu! Os primeiros meses foram os piores, como devem ser os primeiros cinco dias para os ex-alcoólatras — o organismo reagindo ao corte súbito do suprimento com tremores pelo corpo inteiro, agitação, insônia, diarreia, taquicardia, suores, possibilidade de delírio. Assim eram meus dias, semanas e meses. Nas rodas de amigos, quando os encontrava, as vozes que viam de longe sopravam coisas que, na época, eram mistérios para mim. O trabalho se arrastava sem perspectiva de melhora. Me sentia num sanatório. Os colegas de trabalho pareciam internados junto comigo, uma espécie de fantasmas sem rosto. Com o passar do tempo, alguns lugares foram ficando insuportáveis de frequentar. As festas de finais de ano em família viraram o suplício de uma pessoa que já não se reconhecia mais em nenhuma circunstância social. Fui criando alguns refúgios, espécie de oásis no deserto em que sentia transformar-se minha existência. Nestes lugares sentia que a sobrevivência era possível. Gostava de fugir para estes 'oásis', caminhando horas e horas escondida atrás de minha máquina fotográfica. Era terapêutico para mim. Neste ano percebi que nunca estava de fato sozinha. Havia conhecido e me tornado muito íntima de uma quase 'amiga', no mínimo companheira de todas as horas, chamada depressão. Não importava para onde eu fosse. Não importava o que estivesse fazendo. Ou até mesmo não importava se eu não estivesse fazendo nada. Ela estava sempre ali. Como um cachorro fiel que não descola de seu dono. Por vezes ela parecia ser a unica a me abraçar. E mesmo quando pesava demais, ainda assim era um bálsamo tê-la por perto. Sem ela, apenas vazio. Com o passar dos anos, aprendi a identificar o horror. Acreditei que poderia controlá-lo. Neguei a depressão muito mais vezes do que os apóstolos negaram a Cristo. Ninguém deveria ter que admití-la, aceitar-se deprimido. Era muito humilhante. Aos poucos, porém, fui aceitando ajuda e com uma dose extra de humor, fui substituindo a depressão por uma sensação quase insuportável de lucidez, vigor físico e vontade de viver — como nunca antes. Aceitei procurar um medico. Aceitei conversar sobre o assunto. Aceitei encontrar outras trilhas. Reaprender a viver na companhia da sombra passou a ser o meu desafio. Como um alcoólatra em tratamento que aceita trocar as doses diárias de vodca por alguns encontros por semana nos AA, assim aceitei botar os meus cadáveres para fora, à espera de alguém que os recolhesse. Enfim, disso tudo já se vão seis anos. Mas hoje, é apenas mais um dia. É bom lembrar que não existe ex-alcoólatra. A doença está com a pessoa e deve ser observada com cuidado por toda a vida. Assim hoje é apenas mais um dia... Um dia na vida de uma ex-deprê !

quinta-feira, 4 de abril de 2013

"Caiu a decisão!"



Estava aqui lendo notícias e comentários nas redes sociais sobre o recuo na decisão de aumento das passagens do transporte público em Porto Alegre, sobre os protestos pacíficos ( e nem tanto), sobre a luta de um povo por seus direitos civis e me bateu uma espécie de nostalgia sobre valores que aprendi desde a faculdade de comunicação social, já há muito tempo, valores que vieram a se re-significar após  minha breve passagem (por quatro anos) em uma ONG que defendia também uma sociedade civil coesa e organizada em prol de um país melhor e mais desenvolvido. 

De repente tudo o que sempre acreditei, pareceu de novo, ter realmente sentido.

"Mesmo debaixo de forte chuva, centenas de pessoas marcharam pelas vias de Porto Alegre cantando, pulando e gritando palavras de ordem..."

Difícil não voltar ao colorido dos meus vinte e poucos anos, não lembrar de músicas como "caminhando e cantando e seguindo a missão...", difícil não revisitar antigos conceitos sobre meu primeiro olhar a cerca das teorias do que vem a ser uma 'sociedade civil organizada', sobre a dicotomia 'estado de natureza x estado civil', entre tantos outros conceitos sociológicos e filosóficos, que me faziam perder (ou ganhar) horas e horas de bate-papo e cervejas no antigo bar do 'Maza' (nem lembro se é mesmo assim que se escrevia)...

Mas lembro das conversas, dos olhos brilhantes, da vontade de entender o mundo, ou descortinar  o mundo, que me chegava através da fumaça dos cigarros que meus queridos companheiros de boteco costumavam curtir (isto eu tolerava, mas nunca consegui compartilhar). 

Naquela época, fazia muito sentido discutir tudo isso. Fazia muito sentido tentar compreender tudo isso. Burguesia, democracia, estado civil, proletariado, sociedade organizada, Kant, Hobbes, Marx, nomes que me citavam e dos quais eu não fazia sequer ideia de quem eram ou o que defendiam... ainda não tenho certeza de que os tenha compreendido todos, provavelmente não!

Todos estes nomes e a maioria de seus conceitos revi muitos anos mais tarde, ao participar da ONG e de seu entusiasmo pela 'sociedade civil organizada'  e a moderna 'Responsabilidade Social Individual'... novos conceitos, velhos valores... o 'ser e o agir da Sociedade'... 

Este texto e todas suas considerações, apenas me lembra de como, mesmo afastada de tudo isso ainda sou parte de tudo isso. Do quanto mesmo andando de carro, não participando de protestos  ou passeatas, ainda me sinto parte de um estado cidadão, de uma intrigante evolução, da força de uma história... 

O que sei hoje é que me bate uma sensação muito boa quando vejo o povo reunido em prol de alguma causa comum. E mais ainda, quando vem vestida de 'luta-busca', não de 'luta-fuga'... me vem à mente outra vez as salas da famecos e os espaços de botecos, onde ouvia encantada os ensinamentos sobre 'união fazendo a força', 'a vontade de todos os homens construindo uma cidade', uma sociedade civil se organizando por maior inserção, por maior legitimidade, principalmente, pela resolução de seus grandes problemas...