domingo, 10 de janeiro de 2016

Não sou mulher de poemas, minha vida vai melhor em prosa... entretanto, alguns, às vezes me encontram e com alguns, às vezes, converso... a vida em versos é mais poética, mais pausada, mais exposta... sou mulher de prosa, de lineariedade, de retórica e muito ainda de lógica... quando não lógicas as coisas me atropelam, quando não lógica a vida se me pesa... encontrar por vezes a poesia, me encanta e expõe a alma, me tira da linha... me coloca assim como que num ‘suspenso’... traz um ar de que não me conheço... e é aí que me atrapalho... encontro em mim um novo olhar, às vezes ingênuo, que não permite a razão... sem razão não sou eu mesma... sem minha lógica não me encontro... a poesia faz isso com a gente! ... nos suspende num espaço que não permite a análise... transborda sentimentos... expulsa o pensar... nos tira a razão... e sem razão, ah! Sem minha tão amiga razão, me perco de mim e completamente em mim...

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Diário de uma ex-deprê...

Para começar uma conversa a respeito deste título, que me ocorreu ontem, precisaria voltar alguns anos no tempo. Precisamente 2009. Talvez você aí nem acredite em ex-deprimidos, ex-fumantes, ex-alcoólatras. Talvez não existam mesmo. Pesquisando um pouco sobre o tema, descobri que o termo correto para descrever aqueles que deixaram algum vício de lado seria mais como 'alcoólico em tratamento', dependente químico em tratamento, fumante em tratamento, e, por que não enquadrar aqui também, deprimido em tratamento. Isso na verdade não importa muito e não importa mais. 2009 foi talvez o ano do início de uma jornada que me jogou no presente e , sem o qual, eu jamais teria me dado conta do quanto andava ausente do mundo naquela época. Minha ausência era justificada, afinal, estava em 'luto'. Pelo menos assim era como todos os amigos mais próximos (e entendidos de Freud) me definiam. Portanto, eu estava justificada. Minha surpresa com o fato de ter descido em uma estação antes do trem chegar ao seu 'destino final', me deixara atônita. Mas, afinal, não havia como culpar o maquinista, os outros passageiros ou mesmo ao meu companheiro de viagem. Não havia ninguém para culpar, exceto a mim mesma. Eu que decidira desembarcar um pouco antes para ver o que encontraria. E meu susto ocorreu no exato momento em que percebi que o trem da vida não espera ninguém. Ele não pára. Você escolhe ficar. Escolhe sair. E escolhe voltar. Foi num dia de verão em 2009. Talvez janeiro. Enquanto descia a rua principal de meu antigo condomínio para encontrar o portão que me levaria até a primeira parada de ônibus a fim de pegar um coletivo que me deixasse no meio do caminho para o trabalho, encontrei os amigos Ale e Luis tirando seu carro da garagem. Olharam para mim com ar preocupado e, gentis, perguntaram para onde eu iria e se queria carona. Olhei para eles com surpresa e, naquele instante, percebi que não tinha a menor ideia. Ao dizer isso a eles, vi que aí sim, os deixei muito preocupados! Como um alcoólatra que abre a geladeira e, tremendo muito, serve-se de sua dose diária de uísque, ali estava eu. Em frente ao portão, imaginando para que lado eu deveria seguir, sem a menor noção do que fazer. Minhas mãos tremiam com nervosismo. Tremia porque acabara de acordar e perceber, pela primeira vez na vida, que eu não tinha ideia alguma de como prosseguir a partir daquela nova estação. Que eu não havia me preparado. Não havia mapas, tampouco roteiros com planos B alternativos. Foi um ano específico e bastante atípico aquele 2009! Sozinha na estação, a olhar o trem da minha vida seguir seu rumo e sem a menor pretensão de voltar para me buscar, perdi meu chão. Foi um ano decisivo também. Depois dele, nada poderia ser pior, pensei eu! Os primeiros meses foram os piores, como devem ser os primeiros cinco dias para os ex-alcoólatras — o organismo reagindo ao corte súbito do suprimento com tremores pelo corpo inteiro, agitação, insônia, diarreia, taquicardia, suores, possibilidade de delírio. Assim eram meus dias, semanas e meses. Nas rodas de amigos, quando os encontrava, as vozes que viam de longe sopravam coisas que, na época, eram mistérios para mim. O trabalho se arrastava sem perspectiva de melhora. Me sentia num sanatório. Os colegas de trabalho pareciam internados junto comigo, uma espécie de fantasmas sem rosto. Com o passar do tempo, alguns lugares foram ficando insuportáveis de frequentar. As festas de finais de ano em família viraram o suplício de uma pessoa que já não se reconhecia mais em nenhuma circunstância social. Fui criando alguns refúgios, espécie de oásis no deserto em que sentia transformar-se minha existência. Nestes lugares sentia que a sobrevivência era possível. Gostava de fugir para estes 'oásis', caminhando horas e horas escondida atrás de minha máquina fotográfica. Era terapêutico para mim. Neste ano percebi que nunca estava de fato sozinha. Havia conhecido e me tornado muito íntima de uma quase 'amiga', no mínimo companheira de todas as horas, chamada depressão. Não importava para onde eu fosse. Não importava o que estivesse fazendo. Ou até mesmo não importava se eu não estivesse fazendo nada. Ela estava sempre ali. Como um cachorro fiel que não descola de seu dono. Por vezes ela parecia ser a unica a me abraçar. E mesmo quando pesava demais, ainda assim era um bálsamo tê-la por perto. Sem ela, apenas vazio. Com o passar dos anos, aprendi a identificar o horror. Acreditei que poderia controlá-lo. Neguei a depressão muito mais vezes do que os apóstolos negaram a Cristo. Ninguém deveria ter que admití-la, aceitar-se deprimido. Era muito humilhante. Aos poucos, porém, fui aceitando ajuda e com uma dose extra de humor, fui substituindo a depressão por uma sensação quase insuportável de lucidez, vigor físico e vontade de viver — como nunca antes. Aceitei procurar um medico. Aceitei conversar sobre o assunto. Aceitei encontrar outras trilhas. Reaprender a viver na companhia da sombra passou a ser o meu desafio. Como um alcoólatra em tratamento que aceita trocar as doses diárias de vodca por alguns encontros por semana nos AA, assim aceitei botar os meus cadáveres para fora, à espera de alguém que os recolhesse. Enfim, disso tudo já se vão seis anos. Mas hoje, é apenas mais um dia. É bom lembrar que não existe ex-alcoólatra. A doença está com a pessoa e deve ser observada com cuidado por toda a vida. Assim hoje é apenas mais um dia... Um dia na vida de uma ex-deprê !

quinta-feira, 4 de abril de 2013

"Caiu a decisão!"



Estava aqui lendo notícias e comentários nas redes sociais sobre o recuo na decisão de aumento das passagens do transporte público em Porto Alegre, sobre os protestos pacíficos ( e nem tanto), sobre a luta de um povo por seus direitos civis e me bateu uma espécie de nostalgia sobre valores que aprendi desde a faculdade de comunicação social, já há muito tempo, valores que vieram a se re-significar após  minha breve passagem (por quatro anos) em uma ONG que defendia também uma sociedade civil coesa e organizada em prol de um país melhor e mais desenvolvido. 

De repente tudo o que sempre acreditei, pareceu de novo, ter realmente sentido.

"Mesmo debaixo de forte chuva, centenas de pessoas marcharam pelas vias de Porto Alegre cantando, pulando e gritando palavras de ordem..."

Difícil não voltar ao colorido dos meus vinte e poucos anos, não lembrar de músicas como "caminhando e cantando e seguindo a missão...", difícil não revisitar antigos conceitos sobre meu primeiro olhar a cerca das teorias do que vem a ser uma 'sociedade civil organizada', sobre a dicotomia 'estado de natureza x estado civil', entre tantos outros conceitos sociológicos e filosóficos, que me faziam perder (ou ganhar) horas e horas de bate-papo e cervejas no antigo bar do 'Maza' (nem lembro se é mesmo assim que se escrevia)...

Mas lembro das conversas, dos olhos brilhantes, da vontade de entender o mundo, ou descortinar  o mundo, que me chegava através da fumaça dos cigarros que meus queridos companheiros de boteco costumavam curtir (isto eu tolerava, mas nunca consegui compartilhar). 

Naquela época, fazia muito sentido discutir tudo isso. Fazia muito sentido tentar compreender tudo isso. Burguesia, democracia, estado civil, proletariado, sociedade organizada, Kant, Hobbes, Marx, nomes que me citavam e dos quais eu não fazia sequer ideia de quem eram ou o que defendiam... ainda não tenho certeza de que os tenha compreendido todos, provavelmente não!

Todos estes nomes e a maioria de seus conceitos revi muitos anos mais tarde, ao participar da ONG e de seu entusiasmo pela 'sociedade civil organizada'  e a moderna 'Responsabilidade Social Individual'... novos conceitos, velhos valores... o 'ser e o agir da Sociedade'... 

Este texto e todas suas considerações, apenas me lembra de como, mesmo afastada de tudo isso ainda sou parte de tudo isso. Do quanto mesmo andando de carro, não participando de protestos  ou passeatas, ainda me sinto parte de um estado cidadão, de uma intrigante evolução, da força de uma história... 

O que sei hoje é que me bate uma sensação muito boa quando vejo o povo reunido em prol de alguma causa comum. E mais ainda, quando vem vestida de 'luta-busca', não de 'luta-fuga'... me vem à mente outra vez as salas da famecos e os espaços de botecos, onde ouvia encantada os ensinamentos sobre 'união fazendo a força', 'a vontade de todos os homens construindo uma cidade', uma sociedade civil se organizando por maior inserção, por maior legitimidade, principalmente, pela resolução de seus grandes problemas... 


terça-feira, 12 de março de 2013

"SOQUED HOZI: A CONFIANÇA"


Sempre fui uma entusiasta dos 'anjos', costumava ler sobre eles, acreditava em sua existência (de forma empírica e subjetiva)... e ontem, assim meio que sem querer, me deparei com a seguinte descoberta deste texto. 
Não consegui parar de lê-lo, embora longo, e após, voltei a ler!
Enquanto lia,  linha após linha, muitas pessoas queridas me surgiam. A certeza de que este texto tocaria a todos e a cada um de meus amigos de uma forma única e particular, me  entusiasmou em reproduzi-lo aqui, como uma forma de 'reconciliação' com este blog e com a consciência de que 'Ainda acredito nos Anjos'! 
Jac

 "SOQUED HOZI: A CONFIANÇA"

A confiança é algo um tanto raro e desconhecido, meu amor;
Na realidade, nenhum de nós confia realmente, nem em si, nem em ninguém.
Como ignoramos nossa origem e nossa finalidade, o medo e a desconfiança fazem parte das principais características do nosso caráter.
No entanto, meu amor, por pouco que seja o nosso grau de confiança, sem ela não sobreviveríamos.
Pois, assim como é impossível sobreviver fisicamente sem oxigênio, água ou alimento, é impossível sobreviver mentalmente na mais absoluta desconfiança.
Alguém que perdeu, por uma razão qualquer, a confiança em si, começará a desconfiar cada vez mais dos seus próximos, por não possuir mais critérios internos que o ajudem a discernir a confiabilidade, ou não, das informações que recebe.
Um "louco", meu amor, é, assim alguém que, por perder totalmente a confiança em si, isolou-se completamente dos demais num mundo interior fantasmagórico.
Daí a importância, para cada um de nós, de cercar-nos de pessoas a quem amamos.
Pois, não te iludas, meu amor, "amamos" porque confiamos, e não o contrário.
Alguém que desperta o nosso amor é alguém que nos inspira confiança, alguém a quem ousamos abrir nossos corações.
Sem tais pessoas, nossa faculdade de sentir ou de raciocinar se deteriorariam, nos tornaríamos "loucos", nos converteríamos em "sistemas auto-referentes", como dizem os matemáticos.
Que felicidade é, então, meu amor, quando encontramos uma pessoa pela qual nos sentimos aceitos, seja lá como formos, seja lá qual for nosso passado ou nossos sonhos.
Digo "uma" pessoa, meu amor, porque tal intensidade de encontro geralmente só é atingida entre duas pessoas, mesmo que uma delas, ou mesmo as duas, consigam a mesma intensidade com outras pessoas, mas, geralmente, é em uma situação de face a face, ou de coração a coração, que essa intensidade é possível.
Uma relação assim é "sagrada", meu amor, uma autêntica relação "santa".
"Amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito", canta Milton Nascimento.
Pois, chamamos de "amigo" uma pessoa que nos compreende, que nos aceita como somos, que nos assiste em nossas confissões de nossas vergonhas e culpas, uma pessoa a quem ousamos relatar nossos sonhos e planos mais íntimos.
Mas... 
Quantos de nós sente realmente uma confiança absoluta no seu "amigo", meu amor...
Quantas vezes nos sentimos traídos, incompreendidos, ou até mesmo abandonados nos momentos em que mais precisávamos de ajuda e reconforto!
"Bons e leais" amigos são tão raros, que a maioria de nós comete o engano de crer que a amizade depende do acaso, da sorte, ou de uma "graça".
Mas a amizade só depende, UNILATERALMENTE, da nossa capacidade de confiar, meu amor.
Claro que muitas pessoas, por não suportarem viver num mundo em que reinasse a confiança, se aproveitarão, na primeira ocasião, da nossa boa vontade, para nos "trair" ou nos explorar.
O que nos incitará, em seguida, a sermos mais "amargos" e menos "tolos", menos "crédulos".
Existem, então, dois sistemas possíveis em relação à confiança, que criam dois tipos de "círculos", ou "espirais", diametralmente opostos, nas quais cada um de nós vive:
O sistema auto-referente e o sistema hetero-referente.
O mais comum, utilizado pela maioria quase absoluta das pessoas, é o sistema auto-referente.
A palavra "auto-referente" designa em matemática uma propriedade que resta injustificada, pois se "explica" unicamente a partir dela mesma.
Quando utilizamos expressões do tipo "pessoas não merecem confiança", ou "diga-me com quem andas e te direi quem és", e, simplesmente, nos contentamos de nosso "bom senso" para avaliarmos estas "verdades", somos vítimas da "auto-referência", meu amor.
Pois, apenas se estivermos abertos ao diálogo, e em permanente questionamento de nossas próprias posições, escaparemos à auto-referência, meu amor, ou à essa mania, tão humanamente nossa, de nos crermos...
"Donos da verdade"...
Uma metodologia que escapa, por excelência, à auto-referência, foi-nos proposta por Sócrates, que, através da expressão "dialética", exprimia o quanto temos necessidade do ponto de vista do nosso interlocutor, para que, juntos, possamos tatear em direção à "verdade".
Mas, com o correr dos séculos, a palavra "dialética", como tantas outras, foi extirpada do seu contexto original, e utilizada para outros fins.
Como subestimamos a necessidade do ponto de vista contrário ao nosso para o seu aperfeiçoamento, como confundimos um debate de idéias com um confronto entre pessoas, como mentimos a nós mesmos para guardarmos nossas razões, sem nos preocuparmos se estas são pertinentes, ou nos são nocivas, referimo-nos, unicamente, a nós mesmos, praticamente todo o tempo.
"Dogmatizando" nossas "certezas", somos cada um de nós, na maioria dos casos, sistemas mentais auto-referentes, que se comunicam apenas com quem pensamos que pensa como pensamos.
Poderíamos chamar, igualmente, esse nosso isolamento mental em torno de pessoas que não são críticas em relação ao que pensamos, de "círculo da desconfiança", ou "circuito fechado".
Isso explica porque confiamos em tão poucas pessoas, e abrimos nossos corações apenas a elas e, mesmo assim, tão poucas vezes, e apenas parcialmente.
A maioria de nós contenta-se desse círculo fechado, e admite poucas pessoas nele.
Nos sentimos, inclusive, de uma certa forma, "proprietários" destas pessoas a quem nos "dignamos" ofertar nossa confiança, e temos várias exigências e expectativas em relação a elas.
Mas nossos corações não atingem sequer o mais mínimo da capacidade que possuem de sentir e de amar em tais círculos, meu amor.
Pois esse circuito fechado gera medo, paranóia, tirania e possessão sem cessar, que são autênticos venenos do coração. Os componentes de tais circuitos se "sectarizam" em "famílias", ou "clãs", isolam-se dos demais, absolutizam suas relações, e se tornam, assim, "auto-referentes", numa relação entre vários, mas, também, numa amizade "a dois", meu amor.
Essa "folie à deux" desnatura a real característica da confiança, meu amor, que tem a vocação de se expandir, de brotar em um número cada vez maior de corações.
E, mesmo que sua intensidade máxima se apresente num contato entre duas pessoas, se há realmente confiança, não haverá tirania ou possessão, que já são, em si, sinais evidentes de desconfiança.
O segundo círculo da confiança é o sistema aberto, "dialético", ou "hetero-referente", meu amor.
Nesse caso, por mais intensa que seja a confiança de um parceiro no outro, por maior  que seja a alegria de estarem juntos, por maior que seja a felicidade desfrutada nesses momentos de encontro, por maior que seja a tentação de guardar seu parceiro "só para si", no sistema hetero-referente, cada parceiro sabe que a "saúde" da relação depende da sua abertura, da sua capacidade de expansão.
A confiança leva à evidência que cada parceiro precisa se reciclar em outras fontes para que a relação possa se enriquecer do exterior, e não se asfixiar do interior.
Saliento que me refiro aqui à confiança, não a sexo, meu amor.
Pois, parceiros sexuais podem muito bem serem fiéis e não abrirem seus corações entre si, e até terem mais confiança em pessoas com as quais não nutrem relações carnais.
O sexo é, precisamente, o que mais pode, potencialmente, prejudicar uma relação de confiança entre duas pessoas, meu amor, pois, como o sexo tem uma forte conotação de possessão física, raramente parceiros sexuais conseguem vencer todo seu medo de perder a pessoa "amada", a ponto de abrirem seus corações inteiramente a elas.
Evidentemente, se além de uma confiança entre duas pessoas, existe um vínculo sexual atuando, não como empecilho, mas como reforço dessa confiança e dessa vontade de desejar ao parceiro o máximo de felicidade, seja como seja, e com quem seja, então, inigualável é a intensidade dessa relação.
Por isso mesmo, deixemos de lado o aspecto sexual da questão, meu amor, referindo-nos aqui, indistintamente, à confiança, seja no caso de "amigos" que sejam "amantes", ou não.
Até porque pode haver casos em que somos mais ciumentos de um amigo do que de nosso parceiro sexual...
Confiar é compartilhar, meu amor.
Confiar é ofertar, a quem confiamos, toda possibilidade ao nosso alcance para que ele seja ele mesmo, para que encontre o que precisa, para que consiga cumprir seu próprio destino.
Confiar é sinônimo absoluto de amar, meu amor.
A confiança, como o amor, só brota, assim, do solo da liberdade, onde não há mais medo.
Daí a UNILATERALIDADE, à qual me referia antes, em relação à amizade, meu amor.
Pois, só possuiremos confiança própria, quando soubermos confiar na própria confiança:
Quando aceitarmos confiar unilateralmente. Quando perdermos o medo de sermos traídos, quantas vezes forem necessárias, nesse aprendizado em confiar. Quando perdoarmos nossos amigos "traidores", compreendendo que muito maior do que o nosso pânico de confiar, é o nosso pavor que confiem em nós!
Pois como receber a confiança de alguém quando não confiamos em nós mesmos?
Antes que julgues quem te traiu, meu amor, medita sobre o fato que tua confiança deveria ter sido para ele um fardo pesado demais, já que todo "traidor" decerto não confia em si mesmo e necessita que o vejam como traidor, para que ele mesmo não esqueça que é a ele mesmo que ele sempre trai, em primeiro lugar.
Não serão, então, meu amor, a precaução e o cuidado levados ao extremo que evitarão que sejamos traídos.
Muito pelo contrário:
O excesso de controle aumenta a insegurança, a paranóia e a desconfiança, que são os principais fatores que contribuem ao aparecimento da traição.
Logo, quanto mais formos precavidos, cuidadosos, mais ocultaremos nossos corações de nós mesmos, por um lado, e mais desconfiaremos dos outros, por outro.
No entanto, se tentarmos ser sinceros o maior número de vezes possível, com o maior número de pessoas possível em nossa volta, em nossa volta se formará um círculo de confiança que produzirá cada vez mais confiança.
Afinal, meu amor, como poderia a desconfiança gerar outra coisa que desconfiança?
E, como poderia a confiança não gerar ela mesma, se não renunciamos a ela?
Como pode a árvore da desconfiança dar outros frutos que medo, traição e paranóia?
E, como a árvore da confiança poderia dar outros frutos que não fossem paz, alegria, amor e gozo intenso?
Prepara-te, então, para confiar cada vez mais, e UNILATERALMENTE, meu amor.
Perde o medo de ser traído, pois, de traição em traição, chegarás ao teu destino, atingirás a reciprocidade da confiança que ofertarás sem desanimar.
Já a tua "precaução" sistemática só te trará medo, desconfiança e solidão.
Aceita o ridículo de ser enganado, feito de tolo.
Não temas que "abusem" de ti.
Antes, teme que nunca sintas toda a riqueza que a confiança guarda pacientemente para ti.
Quando aceitares confiar, mesmo ao risco de que sejas vítima do escárnio público por tua ingenuidade, meu amor, o potente arquétipo da confiança, mais conhecido na mitologia do anjos como SOQUED HOZI, revelará em ti forças, belezas e uma capacidade de autoproteção que não ousarias sequer imaginar, meu amor.
Esse arquétipo também é conhecido como o "anjo da parceria", meu amor.
Mas essa designação não significa nada para quem ainda não refletiu sobre o fato de que parceria é, unicamente, uma questão de confiança.
Soqued Hozi, ou a confiança em seu estado puro, é o maior liberador possível das nossas potencialidades humanas, meu amor.
Não te preocupes, assim, com o número de "enganadores" que encontrarás no teu caminho, busca unicamente confiar.
Não te digo para não utilizares nenhum discernimento, nenhum critério e confiares em absoluto e indistintamente em tudo e em todos, meu amor.
Verás, entretanto, um dia, à medida em que confiares cada vez mais na confiança, que até isso será possível!
Mas, o que te peço aqui, é bem mais simples, meu amor, é simplesmente:
Abre teu coração mais ainda a quem já confias.
Utiliza isso para tentar, em seguida, ir cada vez mais longe na confiança, com um número cada vez maior de pessoas.
Tenta revelar teus sentimentos mais íntimos e tuas vergonhas mais inconfessáveis àqueles que já estão contigo na trajetória da tua vida há algum tempo.
Não teme seus julgamentos, pois se temes que te condenem, é porque, com certeza, já te condenastes, e será com a ajuda deles que conseguirás perdoar-te.
Confiança é tudo, meu amor.
Não a negligencies no teu dia-a-dia.
Não a subestimes, pois sem ela não obterás absolutamente nenhum progresso humano, não desfrutarás do gozo e da felicidade inimagináveis que só ela pode ofertar aos humanos que somos.
Soqued Hozi espera por ti, meu amor: captura-o!
Para isso: Confia na confiança.
Medita mais e mais sobre ela a partir desse modesto e incompleto panfleto em seu favor e à sua glória. Procurei aqui não ser eloqüente, meu amor, procurei não utilizar palavras rebuscadas, pois a confiança, por ser a mais potente das virtudes, é a mais humilde
Por ser a mais intimidante, é a mais intimidada.
Não pode haver beleza maior que a confiança, meu amor.
Pois a confiança é a essência mesmo da beleza.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

o ponto negro !

"uma vez um professor chegou na sala de aula e anunciou que todos guardassem seus materiais porque ele aplicaria uma prova surpresa. todos, em pânico, organizaram-se para o teste que viria. após entregar as folhas com o conteúdo das provas de cabeça para baixo,o professor pediu a todos que desvirassem suas folhas. nelas, ao contrário do que se imaginava, nada havia de texto. em todas o que se via era apenas um ponto negro bem ao centro da folha. surpresos, os alunos ouviram o professor pedir-lhes que escrevessem a cerca do que observavam por ali... após algum tempo, recolhidas todas as provas, o professor avisou que aquele teste não valeria nota. era apenas uma experiência, que acabou se confirmando ao perceber que todos os alunos, sem exceção, haviam escrito longas teses sobre o ponto negro no centro da folha, esmiuçando detalhes sobre sua localização e ponderando sobre sua existência.... neste momento, o professor surpreendeu-os dizendo que o que pretendia, de fato, era questionar a razão de por que numa superfície muito maior do que um ponto, uma folha inteirinha branca, ninguém havia feito um comentário sequer..."

li este pequeno texto num destes dias num destes emails que se recebe de um destes amigos que insistem em nos mandar mensagens genéricas com reflexões sobre a vida. este texto, bem como este email, bem como este amigo, poderiam tranquilamente transformarem-se no meu 'ponto negro' no  meio da folha branca em que se desenrola minha vida, não fosse por um pequeno detalhe... neste dia, estivera pensando demais em meus pontos negros. estivera reclamando demais. estivera me lamuriando demais. neste mesmo dia, havia guardado alguns minutos dentro de meu carro, em minha garagem, tentando achar forças para sair dali e enfrentar a meia quadra que me separam de meu apartamento.. neste mesmo dia estivera pensando demais em tudo o que perdi, ou que deixei de ganhar (sei lá), graças a não agir como a maioria das pessoas age, ou o que se espera delas... neste dia, me encontrei com minha solidão... me encontrei com minha saudade, com a angústia, com minha falta de planejamento... e a 'sombra' chegou... ali estava meu ponto negro!

para me distrair dele, ou das tantas lembranças que insistem em me acompanhar (meus muitos pontos negros), acabei abrindo este email enviado sabe-se lá porque e, ao ler a história, percebi que a folha branca era o que me recusava a ver, ou não enxergava por estar distraída demais com meu ponto negro...

minha folha branca era eu ter chegado cedo em casa graças a ter um carro, era caminhar apenas uma quadra e meia, era ter onde chegar, um lugar só meu onde podia entrar e sair a qualquer hora, por ter uma preciosidade chamada liberdade, era ter uma filha que em breve chegaria e me contaria as novidades de seu dia... minha folha branca era repleta de amigos, para os quais eu poderia ligar e até 'chorar' se quisesse, sem a menor dúvida de que eles estariam lá para me ouvir e enxugar as minhas lágrimas... ao ler o email, vi que muitas vezes não vejo a folha branca que é muito maior, ampla, repleta de espaço e ainda por cima, branca, o que a torna perfeita, uma vez que posso escrever, desenhar, pintar das cores que quiser, apenas por estar 'cega' e 'focada' no ponto e não no entorno!



sábado, 27 de outubro de 2012

uma porta que se fecha...

é... hoje cheguei aos inimagináveis 4.5 e não queria deixar esta data passar em branco. por pretensão, desilusão ou pura observação (não sei) ... mas é que, de fato, na inocência dos meus cinco anos de idade nunca houvera imaginado chegar assim tão longe! e, por um destes acasos da vida, uma mera distração, aqui estou!

descobri por alguma razão, destas que não sabemos realmente explicar, que cada novo ano, é uma nova porta que se fecha! esta porta é interna e tem a exata medida que damos a ela. no meu caso, a porta que se fecha, é a porta da ilusão (engano dos sentidos ou do espírito que faz tomar a aparência pela realidade, segundo o dicionário). Explico: tenho vivido até aqui (até ontem) algumas certezas equivocadas a cerca de meus anos. Uma destas certezas era a de que não envelhecia, apesar das datas nos calendários nunca andarem para trás. Outra destas certezas tinha a ver com acreditar que seria sempre lembrada por aqueles que algum dia me foram muito caros, o que de fato não é exatamente uma verdade. Tinha ainda a certeza de que a cada novo ano, me tornaria mais sábia! Algumas recentes experiências e em especial algumas vivenciadas neste dia de hoje só me provaram o quanto esta também era uma ilusão!

descobri nos 4.5 que envelheço sim, a cada novo dia; que sou esquecida sim, especialmente por aqueles que um dia juraram nunca me esquecer; que a sabedoria não é necessariamente um troféu recebido pela maturidade.

descobri algumas coisas boas também. que alguns daqueles que cruzaram meu caminho em alguma esquina desta vida, ao longo destes 4.5 tem estado mais perto de mim do que eu podia imaginar. descobri que o que realmente importa está sempre por perto e está sempre presente. descobri que todo o resto é ilusão - aquele engano dos sentidos que falava anteriormente  - e que se não está presente, é porque realmente já não mais importa.

descobri que se a vida me deixou chegar até aqui é porque deve ter alguma expectativa de que eu a 'desnude', que 'acorde', que 'lute', que 'ame'... e que continue cultivando a amizade...porque nestes 4.5 o que descobri foi que “A amizade é um meio de nos isolarmos da humanidade cultivando algumas pessoas.” (Carlos Drummond de Andrade).






segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Confissões II

Algumas fichas continuaram caindo após o curso que fiz naquele fim-de-semana intenso que passei sozinha, mas certa de que todos meus amigos estavam comigo, aqui fora.
Uma delas, e talvez a maior, foi a de que falo muito. Lá, não falei tanto. Aliás, não falei nada. O seminário, apesar de ser em grupo, é muito individual. Houve momentos em que sozinha, comigo mesma, tive que olhar de novo no espelho que se me apresentavam e não havia muito pra onde ir, ou como me distrair. Percebi que muitas vezes falo para não escutar. Para não ouvir meu próprio EU, gritando aqui dentro que esse ou aquele caminho realmente não me levarão nem perto de onde quero estar.
Percebi que tenho muitas certezas e certeza nenhuma. Que tenho muita opinião, para algumas vezes disfarçar minha falta de vontade de ouvir a opinião dos outros. Que tenho muita ideia pre-concebida. Mas percebi que são todas baseadas no meu passado. E o que tenho passado é tudo resultado de minhas próprias escolhas, muitas vezes equivocadas também, porque se baseiam nas minhas ideias pre-concebidas.... enfim, giro e giro a roda da vida e muito pouco tenho saído realmente do lugar.
Percebi que tenho repetido e repetido muitos equívocos. Que venho me equivocando a cerca de quem sou. Do que quero. Do que acredito. Tenho vivido equivocadamente o ‘amor’ , por exemplo, por ter muito poucas vezes realmente conhecido o amor. Tenho experienciado o amor através daquilo que me disseram que o amor era. E acreditei. Porque talvez, de verdade, quem me ensinou isso foi quem eu um dia realmente amei. E a partir destas pequenas certezas, destes pequenos saberes, fui tentando e tentando e hoje estou perdida...
Não pretendo encontrar mais certezas. 
Apenas não quero mais acreditar que as tenho.
Uma vez meu irmão me disse assim: Não há nada que tu faças ou vivas ou penses que mais cedo ou mais tarde não possas simplesmente mudar. Tu podes sempre mudar de ideia!
Acho que poucas vezes algo me soou tão acalentador. Porque me dá a esperança de imaginar que posso tentar, e tentar de novo, errar, voltar a tentar e se achar que nada faz sentido, simplesmente recomeçar!